Concerto de Ave Marias

Ave Maria, gratia plena... Na literatura musical, as Ave Marias ocupam lugar especial nos processos de escrita dos compositores. São raros aqueles que escreveram mais de uma peça direcionada ao texto latino da oração de Nossa Senhora, da Virgem, da mãe de Jesus, Maria. Mas independente da religião específica, ou da não-religiosidade, esse texto provoca, naqueles que escrevem, o despertar de paixões que estão para além da crença ou da simples ideologia religiosa. Compositores ateus compuseram sobre o texto, sendo claros em afirmar, musicalmente, que, longe de se referirem especificamente à mãe do Cristo, pensavam em suas próprias mães e no sagrado dom da vida iniciado com aquela que os carregou, embalou e iniciou no percurso dos dias.

Para nós, cantores e regentes, interpretar esse gênero significa buscar emoções ternas, profundas e expressivas, independente de serem tomadas como maduras ou pueris. Significa intentarmos, através dos sons, evocar sorrisos amorosos e puros e até mesmo lágrimas saudosas ou de amor. E ainda, viver isso dentro do ambiente propício nos proporciona o prazer da vivência da música funcional, situação de extrema importância para aqueles músicos que trabalham com a música cantada, com a palavra. Não só esse aspecto, mas também a questão técnica da nave de igreja, com uma reverberação que, nesse caso, somente ajuda.

Que seja assim o nosso concerto, cantado de maneira espiritual. E que possa atingir tanto aqueles que crêem quanto os que não crêem, pois, no caso dos últimos, a imagem do sagrado continua palpável e sensível na intenção da sua própria progenitora, tão amada e essencial. E já que a palavra Maria pode siginificar “pureza”, “amor”, que seja substituída nas suas intenções. E, dessa forma, o texto passar a ser: Salve mãe, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois entre as mulheres, e bendito o fruto do vosso ventre.