Missa Afro

A Missa Afro-Brasileira é uma peça única. Mexe com um coro (regente e cantores) de várias maneiras: técnica, interpretação, afinação, rítmica… É um desafio, e dos bons. Hoje, sua execução talvez seja um pouco menos impossível do que era há 10 anos. Na verdade, 12 anos. Foi em 2004 que interpretamos essa obra pela primeira vez, e sob a batuta (mãos) do próprio compositor.

Me lembro que ele iniciava sua batalha com o seu coração físico. Digo assim, porque naquela situação pudemos presenciar o Maestro e seu carisma nos conduzindo/induzindo para a superação do desafio. Seu coração musical era forte pra valer. Ele nos bateu e nos acariciou… Nos encheu de elogios e, ao mesmo tempo, pediu que não "baragacemos a sua música". Nos mostrou um pouco da sua arte de reger e, nesse momento, me recordo do final da Missa, quando ele iniciou o Dona nobis e abaixou os braços, e só conduziu o coro com sua expressão. Cantou junto, olhou junto, respirou junto… Foi incrível!

Dois anos depois, quando iríamos realizar uma turnê pelo interior, ele foi fazer música em outras plagas. E justamente duas semanas antes do primeiro concerto. O que fazer? Cancelar? Não seria justo com sua música. Cantamos, apesar de toda a dificuldade emocional. E outras apresentações vieram, num total de 12. E agora, 10 anos depois de sua partida, lá vamos nós ao encontro da obra-prima do mestre. Que ela seja objeto de uma felicidade coral e de um reencontro com aquele senhor de cabelos brancos e sorriso especial que nos acrescentou muitíssimo naquilo que chamamos nossa missão. Só pela Missa Afro, obrigado Carlos Alberto.

Concerto de Ave Marias

Ave Maria, gratia plena... Na literatura musical, as Ave Marias ocupam lugar especial nos processos de escrita dos compositores. São raros aqueles que escreveram mais de uma peça direcionada ao texto latino da oração de Nossa Senhora, da Virgem, da mãe de Jesus, Maria. Mas independente da religião específica, ou da não-religiosidade, esse texto provoca, naqueles que escrevem, o despertar de paixões que estão para além da crença ou da simples ideologia religiosa. Compositores ateus compuseram sobre o texto, sendo claros em afirmar, musicalmente, que, longe de se referirem especificamente à mãe do Cristo, pensavam em suas próprias mães e no sagrado dom da vida iniciado com aquela que os carregou, embalou e iniciou no percurso dos dias.

Para nós, cantores e regentes, interpretar esse gênero significa buscar emoções ternas, profundas e expressivas, independente de serem tomadas como maduras ou pueris. Significa intentarmos, através dos sons, evocar sorrisos amorosos e puros e até mesmo lágrimas saudosas ou de amor. E ainda, viver isso dentro do ambiente propício nos proporciona o prazer da vivência da música funcional, situação de extrema importância para aqueles músicos que trabalham com a música cantada, com a palavra. Não só esse aspecto, mas também a questão técnica da nave de igreja, com uma reverberação que, nesse caso, somente ajuda.

Que seja assim o nosso concerto, cantado de maneira espiritual. E que possa atingir tanto aqueles que crêem quanto os que não crêem, pois, no caso dos últimos, a imagem do sagrado continua palpável e sensível na intenção da sua própria progenitora, tão amada e essencial. E já que a palavra Maria pode siginificar “pureza”, “amor”, que seja substituída nas suas intenções. E, dessa forma, o texto passar a ser: Salve mãe, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois entre as mulheres, e bendito o fruto do vosso ventre.

Concerto Brahms & Britten

Johannes Brahms e Benjamin Britten.

Johannes Brahms e Benjamin Britten.

Realizaremos, daqui a pouco, o concerto Brahms & Britten. O encerramento de uma etapa de trabalho que pretendeu ampliar os conhecimentos do coro, não só de repertório, mas de peculiaridades técnicas corais presentes nas escolas alemãs e inglesas. Para um coro que tem como missão a busca da emoção, o domínio de elementos de expressividade é essencial e, principalmente em Brahms, mudanças de caráter através de constantes alterações de andamentos, dinâmicas, articulações e alturas, nos proporcionam terreno propício a um aprendizado imensurável. Aqueles que ainda crêem que música não se faz com esforço, somos a prova viva de que somente o aperfeiçoamento, a insistência no aprendizado e o estudo, podem nos levar ao sucesso naquilo que nos propomos. Há dez anos, interpretamos o Liebeslieder (Canções de amor), conseguindo um resultado muito satisfatório. O que muda nessa releitura? Musicalmente, eu diria que pouca coisa, mas, emocionalmente... Como é diferente ser romântico com o passar do tempo... Rimos de algumas passagens que chorávamos em outro tempo, e choramos copiosamente em trechos que ousávamos chamar de piegas. Simples assim. Britten é diferente. Peça sacra na essência, o Rejoice in the Lamb não tem valor como peça funcional. Situa-se, claramente, como obra musical para sala de concerto. Evocativa, cheia de exaltações, mostra como um poeta se mostra fiel a Deus através da observação e descrição de sua obra, de sua construção. O texto, numa primeira leitura, afirma a condição maníaca religiosa do escritor, mas que nos encanta, sobretudo, por causa da leitura, e seleção de textos, feita pelo músico inglês. Estamos prontos e concentrados. Um concerto dedicado ao amor (humano) e ao amor (a Deus).

Novo site, mesmo blog.

Primeiro post no novo site do Coro Madrigale e aqui estou eu de casa nova.

Já acostumado a uma boa ferramenta, na qual eu conseguia manter contato com uma boa quantidade de pessoas, sempre levando informações sobre o meio do canto coral, agora eu simplesmente continuo, mas dentro do site do Coro Madrigale. Aqui, uma nova plataforma tornará mais fácil e moderna a transmissão de conteúdo.

E este primeiro post não poderia ser de outra forma, mas convidando a todos para um passeio pela plataforma de divulgação do coro, além de fazer a chamada para a próxima apresentação do Madrigale. Dia 10 de maio, às 20h, no Conservatório Mineiro de Música, apresentaremos um concerto dedicado a Brahms e Britten. Um mergulho no romantismo alemão brahmsiano e na linguagem de um dos principais compositores ingleses do século XX. De Brahms, apresentaremos o Quarteto op. 112 e o Liebeslieder op. 52. De Britten, o Rejoice in the Lamb. Sobre as peças e a preparação, falarei nos próximos dias.

Um abraço e bom passeio pelo site!